Por amor às cidades — Carla Vidal

Por amor às cidades, a humanidade atravessou mares e oceanos e, ao longo da história, converteu esses lugares em objetos de desejo e conquista. Cenários de sonhos, as cidades estão em toda a parte, nas geografias do mundo, nas experiências das artes, nos ensaios poéticos, políticos e literários.

Percorrer a história da humanidade caminhando por cidades vivas, inventadas, desenhadas em mapas, esquecidas, bombardeadas ou inundadas pelas águas de rios e de mares é uma experiência que se repete no tempo.

Lugares fantásticos possuem uma alma única e exalam, ao mesmo tempo e em franco convívio, os aromas do amor e do terror. O escritor italiano Italo Calvino, nascido na cidade de Havana, registrou em As cidades invisíveis a incrível história de um viajante que percorre cidades imaginárias para apresentar ao seu rei aquela que pode ser a cidade perfeita – uma síntese de todos os desejos e possibilidades de viver. De uma cidade, não aproveitamos as suas sete ou 77 maravilhas, mas a resposta que dá às nossas perguntas”, escreve Calvino, uma sentença que, de tempos em tempos, tiramos do caderno de notas como um estímulo a pensar nas perguntas que precisamos mobilizar em momentos de incerteza e incredulidade, como os que vivemos no presente. 

Enquanto este seminário se desenha, e como parte de um convite à reflexão, dezenas de cidades agonizam, ao passo que outras tantas são consumidas pela violência frenética dos tempos contemporâneos, que converte bombas destruidoras em elementos permanentes de convívio, horror e morte. Porto Alegre, Manaus, São Paulo, Petrópolis, Gaza, Rafah, Kiev, Kharkiv, Mariupol, Lytton e outras sofrem agora os impactos das mudanças climáticas ou dos conflitos armados e genocidas, exterminadores de presentes e de futuros.

As cidades que amamos padecem e tornam-se memórias, fragmentos soltos, submersas pelo descaso com as próprias cidades e com as vidas que nelas residem. Há que se respeitar as cidades.

As cidades que amamos estão à deriva, consumidas freneticamente e em risco permanente – nelas habitam cada vez mais os nossos medos, as nossas dúvidas, mas também os nossos desejos, que não nos permitem mais ser quem somos, ou continuar a viver como vivemos. Há que sonhar as cidades, de novo e outra vez.

As cidades que amamos querem a reinvenção, a possibilidade de reimaginarmos ruas, caminhos, gentes, e voltarmos a partir de agora para uma casa mais segura, com bagagens mais leves e sentidos mais alertas e conscientes.

Que cidade você deseja amar?

Fotos: Carlos Carvalho, maio de 2024. Imagens de Porto Alegre inundada.

Carla Vidal, do Gengibre Criativo
Outono de 2024
FÓRUM 2330

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