Amara Moira e Carlito Azevedo propõem “textos impossíveis” e “desespero criativo” para lidar com vigilâncias contemporâneas

Por Paula Carvalho

Numa mesa mais que poética, a escritora Amara Moira e o poeta Carlito Azevedo discutiram saídas para tratar de literatura e da memória em tempos de patrulha como os de hoje. O debate “Fio de histórias – criação e memória em tempos de controle e vigilância”, terceira mesa do primeiro dia de debates do III Fórum Internacional Brasil Cultura 23-30, teve mediação da anfitriã e curadora do seminário, Marta Porto.

A autora de “E se eu fosse pura/puta?”, primeira travesti doutora em crítica literária pela Unicamp, lembrou em sua fala de um livro de Hilda Hilst e da obra da escritora Cassandra Rios, que mexem em “lugares esquisitos”, como a exploração do erotismo em crianças e o gozos diversos a partir da experiência de mulheres trans. 

“Eu falo em oficinas que quero trazer coisas que mexem com um lado mais sombrio da experiência humana, textos impossíveis”, evocou Amara Moira. A ideia é que esse lugar de recalque, do qual a literatura pode tratar, nos ajuda a ser melhores leitores e vivenciar a realidade de forma mais complexa. 

Já o poeta carioca, que se diz com um “desespero criativo” ao ler notícias hoje, contou de sua experiência ministrando aulas em três comunidades do Rio de Janeiro: na Rocinha, em Manguinhos e no Complexo do Alemão. 

Numa sessão com os alunos, pediu que eles se imaginassem personagens de uma notícia de jornal, e escrevessem depoimentos pensando nisso. Num período tenso da época das Jornadas de Junho, em 2013, um aluno da Rocinha decidiu escrever o depoimento de uma bomba usada por um black Block do período, lido por Carlito na sessão. Esse aluno tornou-se escritor, Giovani Martins, reconhecido e publicado por algumas das maiores editoras do país.

Para Marta Porto, mediadora do debate e criadora do fórum, essas formas de lidar com os “textos impossíveis” são também outro modo de fazer política. Em tempos de censura e vigilância com autores como o caso recente de Jeferson Tenório, “textos impossíveis” ajudam a sair de uma certa “infantilidade” com que os públicos literários são vistos hoje. 

Para os três, há uma certa presunção de um leitor “obtuso” no mercado literário hoje. Obras são lidas por especialistas para não deixar passar pontos polêmicos, há uma preocupação com o que se coloca no papel para não “dar ideia” para comportamentos fora da lei. Mas o que os escritores tensionam é o direito da ficção em se materializar: de personagens poderem ter alteridades, de o escritor poder imaginar comportamentos nem sempre convencionais ou dentro de normas consideradas padrão, como o caso de vidas trans e travestis. 

Muitas vezes discutida em termos do complexo da indústria digital em que estamos inseridos, a “vigilância” na mesa com Carlito Azevedo, Amara Moira e Marta Porto toma um lugar mais pessoal, dos lugares dos próprios autores num mercado excessivamente preocupado com críticas e “cancelamentos”. Além disso, do fazer literário como ferramenta política capaz de subverter censuras e auto-censuras.

Foto: Marcelo Batista

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