Por Paula Carvalho
Na última conferência do primeiro dia do III Fórum Internacional Brasil Cultura 23-30, o gestor cultural catalão Angel Mestres apresentou casos de inovação cultural provocados pela Trànsit Projectes, instituição que dirige em Barcelona. “Esse grupo de pessoas se dedica a projetar, produzir, gerenciar e comunicar projetos que favorecem o acesso à cultura. São processos, experiências e ideias que pretendem contribuir para a criação de conversas, pontos de encontro e acoplamento de comunicação”.
Entre seus exemplos estão a reivindicação do espaço urbano provocada após uma ameaça de fechamento de um McDonald’s em Marselha e a experiência de um escritor argentino que “hackeou” um prêmio literário e ofereceu o dinheiro para projetos com crianças na Bolívia e intercâmbio de gestores culturais na América Latina, através da residência SURES. Mestres vai na linha do curador Hans Ulrich Obrist ao afirmar que espaços culturais devem ser refúgios, lugares de encontro e afeto.
Sua própria palestra tem esse tom: ele distribui papéis com conceitos (como “intercâmbio”, “reflexão”, “disrupção”, “acesso”, “transcendência”, “comunidade”, entre outros) para a plateia, e depois de cada exemplo dado, cada um é convidado a erguer a mão atribuindo à experiência um termo. Assim, vai construindo uma interação com o público e uma reflexão sobre quais valores em comum se está discutindo.
Mestres também contou da experiência do #plantauno, espaço cultural que agrega produtores em Barcelona e tem “apenas dois objetivos”: “prototipar ideias e cultivar afetos”. O trabalho da Trànsit Projectes, ainda que sediado em Barcelona, perpassa diversos países e instituições culturais da América Latina, como México, Argentina, Colômbia e Chile.
Marta Porto, criadora e curadora do fórum, encerrou o primeiro dia de conversas destacando, após a fala de Mestres, esse novo desafio das instituições culturais. “Em vez de pensar no público apenas como quem vai passivamente assistir a algo, é necessário entender que ele vai a esses espaços (como o do Museu da Língua Portuguesa, sede do evento) como um lugar de refúgio, para que se coma, se cante, se divirta, se conviva”.
Provocando gestores culturais presentes no evento, ela lembrou que o trabalho com instituições culturais “agora têm o lugar de induzir” para que se fomente esse senso de comunidade, de participação e de estar coletivo.
Em seu exercício de inspiração da plateia, Angel Mestres ressaltou que a sustentação de cada história se dá através da interação com outras pessoas, até com coisas simples como provocar riso no outro. Lembrando o escritor argentino Julio Cortàzar, arrematou: “Não é possível que estejamos aqui para não poder ser” (“No puede ser que estemos aqui para no poder ser”, no original).
Foto: Marcelo Batista


Deixe um comentário