Em aula aberta, o filósofo Bernardo Toro fala de cidades como centros de transações

Por Pérola Mathias

O filósofo colombiano Bernardo Toro trouxe ao III Fórum Internacional da Imaginação a aula aberta Imaginar cidades culturais: a festa e a terra como fontes da con-vivência, mediada pela arquiteta e pesquisadora Nisia Werneck. Além de fazer reflexões sobre como poderemos resolver o problema da imaginação e a construção de um futuro possível nas cidades, Toro propôs uma definição de cultura e retornou às origens dos conceitos de democracia, ética e dignidade humana. 

Para ele, pensar a cultura envolve se relacionar com o outro e seu contexto. Vivemos na atualidade um momento de crises diversas, com a climática no centro das atenções, mobilizando as principais lideranças políticas mundiais em torno do tema para buscar soluções possíveis para o problema. A pandemia de Covid-19 mostrou como é frágil a ideia de cidade que se pauta na materialidade de sua paisagem e de seu espaço físico.

As cidades, reforça Toro, não são os edifícios, os centros comerciais, uma discoteca, o estádio de futebol ou as ruas. Esses são espaços que as pessoas ocupam para realizar as liturgias próprias às atividades e ritos para os quais estão destinados. Quando os espaços estão vazios de pessoas e as relações que estabelecem, o que sobra?

As cidades são as transações que nelas ocorrem. A ideia de “transação” é central no pensamento e na obra de Toro e significa que cada tipo de intercâmbio pode ser realizado: econômico, político, social, cultural, emocional e espiritual. Como algo que está sempre por ocorrer e demanda imaginação – tema central do evento. 

“Quando queremos mudar uma cidade, isso vai depender da imagem que temos dessa cidade”. A ideia fica mais complexa quando o filósofo fala que as transações devem ser cálculos para ganhar-ganhar, e não ganhar-perder. “É melhor ter razão ou ser feliz? Temos que jogar no ganhar-ganhar. Porque a tentação que você tem na hora de negociar é ganhar”. E assim, nosso futuro depende dessa nossa capacidade de fazer novas transações. 

Bernardo Toro esteve envolvido no processo de requalificação e revitalização urbana de Bogotá nos anos de 1990, que privilegiava a criação de áreas públicas, o fortalecimento da vida democrática e o convívio social. No entanto, o que tornaria um parque inseguro em um lugar seguro na prática e na imaginação dos cidadãos? Incentivar o comércio local, constituir vizinhança, transformar a paisagem através das relações – ou transações. As transações são a essência da cidade, diz Toro. 

Se as transações políticas são aquelas que mais suscitam conflitos e desafios por lidarem com a constituição do poder: “Política é a arte de criar e estabelecer convergência de interesses”. Já na cultura, as transações para ganhar-ganhar são aquelas que conseguem colocar diversas maneiras de ver o mundo em prática. 

Em um exercício imaginativo, Toro pontua como a América Latina é uma promessa de futuro, porque nosso território poderá acolher inúmeros migrantes climáticos que terão que deixar suas cidades e locais natais, por exemplo, devido à subida do nível do mar. Como lidaremos com o trânsito de milhões de pessoas?

Nisia Werneck e Bernardo Toro são amigos há mais de 30 anos. A arquiteta destacou a múltipla formação do filósofo, que também estudou Matemática, Física e é um nome de referência no pensamento sobre Educação, bem como sua atuação na Fundação AVINA e longa relação com o Brasil. 

Ainda antes de Bernardo Toro iniciar sua aula, Nisia Werneck havia o provocado sobre estarmos vivendo em um momento de interrogação, em que olhar para o futuro sem medo tem sido difícil. E depois da aula, ao iniciar o debate, a arquiteta relembrou as virtudes cotidianas de que fala Tzvetan Todorov ao analisar o Holocausto. 

Tanto a resposta inicial de Toro, quanto a do fim do debate são convergentes. Se lá no início ele relembrou que na língua Guarani não existe a formulação do futuro, apenas a ideia de, no máximo, “depois de amanhã”, porque a vida na selva é um constante perigo para se imaginar muito à frente; no fim, ele relembra que talvez o Equador seja o país com a Constituição mais avançada do mundo por dizer, em seu artigo primeiro, não sobre a dignidade humana, mas sobre a dignidade de Pachamama. Ou seja, não há vida humana sem o planeta estar vivo. 

Outro tema destacado por Toro ao longo de sua fala, bem como ao responder um questionamento da plateia sobre como poderemos fortalecer a esquerda frente aos avanços da extrema-direita em todo o mundo, foi o da ética. Para ele, a ética é o coração de toda e qualquer instituição, seja ela um governo, uma empresa ou uma família. Nenhuma delas pode prosperar sem instituir confiança. E se o processo de construir essa confiança falha, mais dependente de relatores e auditores elas ficam.

A Democracia não é uma dádiva divina. É preciso lembrar constantemente que ela é uma construção do homem e significa a capacidade de uma sociedade de se organizar a si mesma. Ela foi criada como uma forma de afastar e evitar os tiranos, enquanto o Estado existe para diminuir as dores dos cidadãos – seja na saúde, na educação, na cultura etc.

Foto: Marcelo Batista

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