Projeto do Museu da Língua Portuguesa busca entender a infância que habita seu entorno através de experiência etnográfica

Por Pérola Mathias

O Museu da Língua Portuguesa empreendeu uma pesquisa com os habitantes de seu entorno, comandada pela historiadora Caróu Oliveira e apresentada no painel Fábulas Infantis – cidades imaginadas por e para crianças, no III Festival Internacional da Imaginação, mediado por Evelyn Lauro. Caróu estabeleceu como método de pesquisa um experimento etnográfico que teve como recorte a infância de duas comunidades diferentes no território do Museu da Língua Portuguesa: as famílias da Ocupação Mauá e os habitantes dos edifícios construídos a partir da Parceria Público-Privado (PPP) de habitação popular, entregues durante a pandemia, nessa mesma rua. 

O edifício da Ocupação Mauá foi construído na década de 1960 para ser um hotel, que funcionou por pouco tempo. Nos anos 2000, foi ocupado pelo movimento que luta por moradia, que reconstruiu várias de suas partes e permitiu que ele fosse novamente habitado. Por fim, o imóvel foi comprado pela prefeitura e hoje abriga centenas de famílias. O prédio conta com uma área comum no térreo que pode ser vista pelas janelas de todo o condomínio, o que faz com que a convivência social e o cuidar das crianças ali sejam coletivos. A ocupação é resultado da luta de diferentes movimentos sociais articulados que, além do direito à habitação, demandam melhorias para a região, sobretudo na relação da prefeitura com o chamado “fluxo”. 

Já os indivíduos e famílias que recém passaram a habitar os condomínios construídos a partir da PPP não eram, historicamente, moradores do centro. Separados da Ocupação Mauá por uma única rua, os prédios são também vizinhos do fluxo de usuários que vivem nas ruas da região da Luz. Por isso, experienciam um ambiente com presença policial constante, rondado pelo medo do tráfico e da imagem construída a respeito dos usuários. Como frisa Caróu, estas famílias convivem não com as pessoas que formam o fluxo, mas com o medo que têm delas. 

A pesquisadora destaca a importância do cuidado com o vocabulário e com os preconceitos em relação ao território do entorno do Museu da Língua Portuguesa, associado à “cracolândia” e, por muitos anos, considerada uma região degradada, abandonada e perigosa, seja pela imprensa ou pela sociedade. Em primeiro lugar, ela salienta que é preciso entender que “cracolândia”, considerado um dos principais problemas sociais da cidade de São Paulo, não é um lugar, mas uma aglomeração de uso a céu aberto. 

O fluxo, como é chamada essa concentração de pessoas, tem sido constantemente deslocado pela Guarda Municipal, tornando a “cracolândia” não uma única aglomeração, mas várias. No que diz respeito às movimentações que ocorrem na rua Mauá, as comunidades precisam tomar a frente para reivindicar a segurança de seu espaço, bem como o livre ir e vir que tem relação direta com a dinâmica com o comércio local e a vivência das crianças ali. 

Uma das atividades propostas por Caróu às crianças da comunidade formadas nos novos edifícios da região foi uma oficina de vídeo, na qual elas desenvolveram um filme desde o roteiro até a gravação e atuação, tudo feito nas áreas comuns do prédio. A história brinca com a ideia de que há um zumbi no último andar, onde ficam as máquinas dos elevadores. Os usuários do fluxo são constantemente associados a essas figuras da ficção e a obras que os retratam, como a série Walkind Dead. Matar esse zumbi é, simbolicamente, matar o medo instalado na região sobre o convívio com essas pessoas. 

Ao longo da pesquisa, entendeu-se que as duas comunidades pesquisadas desenvolvem dinâmicas distintas com relação a suas crianças. Se na Ocupação Mauá é o coletivo que vigora, nos condomínios é a dinâmica do não compartilhar o espaço comum. Assim, elas desenvolvem diferentes vivências com a rua e o entorno. Em primeiro lugar, o que fica claro é que não existe hegemonia entre os grupos do território do Museu, o que aponta que é preciso que a instituição crie diferentes formas de aproximação com essas pessoas. 

Em segundo lugar, a busca por romper as barreiras simbólicas entre a convivência das comunidades com o museu, ou seja, de eliminar muros e portões na hora de propor atividades, não é suficiente. É preciso demonstrar que o Museu da Língua Portuguesa, assim como o Museu do Futebol, por exemplo, é um espaço de brincar, de aprender brincando e não um local normativo ou associado às dinâmicas escolares, como a disciplina dos corpos e do aprender obrigatório ou complementar ao conteúdo da sala de aula.

Foto: Marcelo Batista

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