Por Paula Carvalho
Experiências culturais com jovens e crianças foram tema da penúltima mesa do III Fórum Internacional Brasil Cultura 23-30. Como garantir que os projetos não morram? Como construir evidências do futuro, a pessoas para as quais muitas vezes foi negado o direito à cultura?
Sejam vinculados ao Estado ou não, vale a questão, colocada por Bel Santos Mayer, gestora do Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunitário. Além dela, Cesar Piva, presidente da Agência de Desenvolvimento do Polo Audiovisual da Zona da Mata (Apolo), e Lucina Jiménez, diretora do Instituto Nacional de Bellas Artes y Literatura do México, compartilharam práticas continuadas de educação com cultura – ou vice-versa, mas jamais desvinculadas.
Bel Santos Mayer compartilhou as experiências de criação de bibliotecas em Parelheiros, extremo sul de São Paulo, que até os primeiros anos de 2010 não possuía nenhum equipamento cultural no bairro.
“O que as situações de periferia nos expõem muitas vezes é um desgaste tão grande do corpo que sobra pouco tempo para a imaginação, para o descanso. E com a literatura temos pensado em construir esse lugar”, diz Mayer.
A partir da década de 2010, a partir de pesquisas que constataram a falta de equipamentos de cultura e, além disso, os índices de desenvolvimento humano muito inferiores aos da região central da capital paulista, Mayer e sua equipe passaram a desenvolver um trabalho em Parelheiros. Desde então, já foram criadas cinco bibliotecas no bairro, além de projetos de formação de jovens que os trouxeram para outros equipamentos culturais da região central da cidade.
Em sua participação por vídeo da Cidade do México, Lucina Jiménez comentou sobre o momento de efervescência cultural e política do seu país. Segundo ela, as experiências de educação têm sido renovadas a partir de vivências com arte.
“Por muitos anos a arte não foi tida, diferentemente da ciência, como um instrumento para se criar conhecimento. E agora estamos vendo nas escolas, por meio de vivências com a comunidade, que essas experiências têm transformado a vida das pessoas”, lembrou Jiménez.
Há, primeiro, um reconhecimento de outros saberes, línguas e técnicas – e ela fala aqui da multiplicidade de etnias e povos do México –, como algo necessário para ser retomado e compartilhado em espaços comunitários. De outro lado, diz, a constatação da necessidade de se valorizar trabalhar a partir dos saberes bioculturais nesse momento de crise climática global.
“As comunidades estão trabalhando nesses dois pontos, e também reivindicando seus direitos culturais, que por muito tempo foram negados”, afirma.
Cesar Piva contou da criação do Polo Audiovisual da Região da Zona da Mata, em Minas Gerais, a partir da agência de desenvolvimento que preside em parceria com órgãos do Estado, universidades, empresas e com a sociedade.
Cerca de 120 mil crianças da região já assistiram a filmes brasileiros nos cinemas instalados pelo grupo nas instituições de ensino. “A gente acredita que toda escola é um centro cultural”, afirma. “Não penso que vão existir salas de cinema em todo o Brasil, especialmente no interior. Como já temos escolas construídas, por que não toda escola ter um cineclube, um teatro?”.
Mais recentemente, o grupo tem trabalhado na criação de um centro com expertise na produção de animações, já com curtas e parcerias para a produção de longas metragens.
“Já tivemos participação em 30 grandes produções audiovisuais, 54 curtas e outros novos projetos selecionados em um edital de 2019. O impacto é de R$ 122 milhões na economia, além de mais de dois mil postos de trabalho”, afirma.
As três experiências, como destacou a mediadora Lena Cunha, têm um tom comum: o de exemplos de projetos que são de fato realizados e que impactam a vida de muitas pessoas. Teoria é importante e embasa muito das atividades artísticas, mas também é preciso colocar a mão na massa, experimentar, criar e colocar em movimento os projetos e as pessoas. E garantir que essas produções tenham continuidade.
Foto: Marcelo Batista


Deixe um comentário