Tiganá Santana e Daiara Tukano questionam quando as existências negras e indígenas deixarão de ser sessões temáticas nas instituições

Por Pérola Mathias

O segundo dia do III Fórum Internacional da Imaginação foi aberto com o painel que buscou entender a chamada “Ficção Brasileira” através do acervo do Museu da Língua Portuguesa, que teve a mediação de Roberta Saraiva, diretora técnica do Museu da Língua Portuguesa, e as participações de Isa Grinspum Ferraz, sua curadora especial, Daiara Tukano, artista e comunicadora indígena, e Tiganá Santana, multiartista, tradutor e professor da UFBA. Tanto Daiara, quanto Tiganá são, também, curadores convidados e coordenaram exposições no mesmo museu: “Nhe’ẽ Porã: memória e transformação” e “Línguas africanas que fazem o Brasil”, atualmente em cartaz. 

Isa Grinspum falou sobre a gênese do Museu, que começou a ser formulado em 2002. As primeiras questões que a ideia do projeto trouxe foi sobre o sentido em se criar um museu com esse tema no Brasil do século XXI e quais seriam os fundamentos e enunciados que ele colocaria em prática. Visto que a língua é um elemento forte da cultura, que está tanto dentro, quanto fora de nós, é preciso entender que ela também está sempre em transformação. 

Depois, foi pensado quem seria o público desse museu, que não queria abordar a língua por um viés acadêmico, tampouco ter um conteúdo que fosse visto como complemento escolar.  O objetivo seria oferecer aos visitantes experiências originais e mostrar que a língua de um país gigante como o Brasil é uma expressão potente de cultura. No entanto, o Português é falado em diversos cantos do mundo e o desafio estava e está em abordar a língua através de uma perspectiva da Antropologia Cultural, da História, da Linguística e da Sociologia. 

Por fim, a curadora destacou a importância de um projeto de museu que seja capaz de combater a ignorância e o preconceito linguístico, bem como o desprezo sistemático da nossa formação luso-afro-ameríndia, falando com todos os brasileiros indistintamente. Para Grinspum, o espaço para o diálogo com a Educação estava na base do desenvolvimento do projeto.

Daiara Tukano começou sua fala chamando atenção para o fato de que essa língua portuguesa da qual falamos pode ser considerada uma “língua perigosa”: por que ela leva apenas o nome de “portuguesa” se tem raízes distintas, tanto nas línguas indígenas, quanto nas africanas – que são muitas e de troncos diferentes?

A artista chamou atenção para algo presente na cosmologia indígena, de que não apenas os humanos têm uma língua: há a língua dos rios, da floresta, dos animais, dos sonhos, do corpo etc. O museu deveria, portanto, ser um espaço de transmissão, aprendizagem e fonte de novas ideias, que diferisse da concepção hegemônica branca sobre o que a língua significa. 

Ela também complementou que o trânsito que realizamos por sensações e sentidos, que nos permite adentrar nosso próprio corpo e ser mais do que humanos, mas virar rio, virar mar ou nos enxergar como outros corpos pensantes além deste, também faz parte da língua. Fazendo referência ao título do Painel, propôs que devemos, enquanto país, ser mais do que um projeto ficcional de Brasil apegado ao eurocentrismo. 

Para Tiganá Santana, ao tentar colocar sua fala, desde o início, já em diálogo com as que o precederam, disse que vivemos um momento importante de reflexão para uma transformação efetiva das pessoas que frequentam o espaço do Museu e todos os outros espaços institucionais. Esse foi o seu direcionamento no processo de construção da exposição que curou e que está em cartaz. Frente ao corpo de trabalho que compõe o museu questionou: quando é que as existências negro-diaspóricas, negro-africanas e indígenas deixarão de ser vistas como sessões temáticas e passarão a existir como comportamento efetivamente incorporado pelas pessoas e instituições?

Para o artista, a questão deve servir como um incômodo geral, porque as percepções sobre a não-hegemonia branco-europeia que têm vindo à superfície de maneira mais enfática na atualidade são, na verdade, percepções tardias e ainda distantes daquilo que possa dar um “giro no corpo”. O giro decolonial não pode acontecer se não por meio dos corpos das pessoas. E em que medida, nós, todos os dias, avançamos com essas questões?

Ele destaca que, no Brasil, as pessoas que ocupam os lugares de decisão – ou seja, de poder – não querem dividir esses seus espaços privilegiados, tampouco ceder as percepções que sempre tiveram para dar lugar a outras percepções, linguagens e cosmologias. É importante que o pensamento museal, que inclui o corpo, esteja em deslocamento para pensar a língua portuguesa e fazer com que, de fato, novos imaginários sejam construídos. 

Tiganá lembrou o escritor martinicano Édouard Glissant para dizer que é preciso lembrar que, ao anunciar algo em uma língua, temos que lembrar que o fazemos em meio a todas as línguas do mundo, por múltiplos atravessamentos. 

O debate em torno das falas suscitou inúmeras questões e posicionamentos, principalmente com relação ao entendimento sobre as temporalidades e multiplicidade de histórias que nos constitui enquanto país. Essa compreensão, que ainda não é suficiente para que superemos os séculos de desigualdade, de genocídio e escravidão, se dá, claro, de maneira tardia pelas instituições, com a devida consciência que se deve ter sobre o tema. Para uma transformação real, que envolva pensamento e corpo, é necessário que ninguém se sinta confortável com a posição que ocupa, mas que se os esforços para entender as mudanças de paradigmas necessárias para olharmos nossa própria cultura, incluindo aí a língua, um dos mais importantes instrumentos de constituição desta dimensão, seja geral. 

Uma pergunta da plateia deixou no ar a dúvida sobre se o que as instituições estão fazendo com relação a absorção das perspectivas afro-diaspóricas e indígenas não é apenas uma espécie de “complience” – ou seja, se não estamos apenas seguindo leis um tanto superficiais sobre diversidade e inclusão. 

Foto: Marcelo Batista

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