Por Pérola Mathias
Na mesa “Contadores de Histórias – expedição pela poética brasileira”, que encerra o III Fórum Internacional Cultura Brasil 23 31, Bia Lessa e Elísio Lopes Jr. promoveram um passeio por algumas de suas obras e por sua trajetória profissional, mediados por Aimar Labaki.
Para Bia Lessa, seu trabalho é movido pela possibilidade de imaginar o impossível e dar passos no sentido de criar surpresa na forma com a qual materializa uma ideia ou um conteúdo, que não precisa se encaixar na ideia do original ou do novo. Para ela, a importância da criação está em atravessar os fios de histórias que vieram antes e que perpassam outras pessoas, lugares e formas, sem medo e com personalidade.
Bia diz, ainda, que está desencantada com a arte. Por muito tempo, considerou a arte a vanguarda e a luz do mundo. Hoje é a ciência que ocupa esse lugar e consegue, de fato, quebrar paradigmas e resolver questões que possibilitam mudanças profundas em nossas percepções e corpos. As descobertas a respeito do genoma, das possibilidades de reprodução, transição de gênero, de superar doenças etc. têm mexido muito mais com nossos limites do que a arte.
Apresentando fotos de seus trabalhos, citou parcerias com outros artistas e profissionais, como com Júlio Bressane no espetáculo “Cartas de Amor Portuguesas”; a ópera “Suor Angélica”, com cenário de Paulo Mendes da Rocha; e “Orlando”, com Fernanda Torres. Ela também destacou sua criação para Macunaíma, que se diferenciava daquele criado por seu principal mentor, Antunes Filho. Seu Macunaíma, ela conta, não era nada solar. A preguiça do bordão do personagem era uma preguiça do mundo como ele está agora, da monocultura e da extrema individualidade.
A fala de Elísio Lopes Jr é reveladora no que diz respeito à atuação de um profissional negro no Brasil. Natural de Salvador, ele começou no teatro ainda adolescente. Quando sua primeira peça foi selecionada para um festival em Curitiba, ele tinha 15 anos e foi barrado do debate da própria peça. Por causa de sua idade, sim, mas sobretudo por sua aparência, porque pôde perceber ali que chegava a um lugar em que não reconhecia pessoas como ele. Ou seja, que Curitiba não era uma cidade majoritariamente negra como Salvador, como ele.
A partir daí, Elísio percebeu que era importante ocupar espaços. Ele foi diretor da Fundação Palmares no segundo governo Lula, comandou a reinauguração da Concha Acústica de Salvador, roteirizou filmes e, atualmente, trabalha na TV Globo. Para ele, é importante poder colocar suas histórias no formato da comunicação de massa, simplificando a forma, mas mantendo intacta a história que deseja contar.
O roteirista diz que não separa sua prática no teatro de sua vida cotidiana e história pessoal. E que, olhando em retrospecto, encontra o teatro em diferentes cenas e acontecimentos que vêm desde sua infância. Essas narrativas são fundamentais, ele diz, para o alimentar como criador e para levar a profissão como uma missão. Esse é o compromisso que assume com quem é.
Durante o debate, a plateia e os palestrantes discutiram as fronteiras entre a ficção e a realidade no Brasil atual. Como encontrar um mundo de esperança em meio ao obscurantismo que nos ronda? Um dos exemplos discutidos foi a encenação sobre o aborto ocorrido no Congresso Nacional nesta semana. Estamos em uma encruzilhada.
Foto: Marcelo Batista


Deixe um comentário