Texto de Marta Porto para a abertura do Laboratório de Imaginação, realizado entre 2 e 3 julho no CPF/SESC SP com coordenação de Stela Barbieri

Foto: Débora Bruno
“Quantos sonhos, cantos, quantas flechas e lágrimas foram derramados para que pudéssemos estar aqui, de peito aberto, dispostos a passar a emoção de viver e ouvir o mundo”[1]. Daiara Tukano
Bom dia à todas e todos!
Este terceiro fórum internacional foi dedicado a investigar a imaginação, a ficção, a poesia, as artes e o exercício da criação como fundamentos da construção de presentes e futuros.
Colocou em relevo o papel das instituições culturais como dispositivos para traduzir, estimular e proteger a imaginação como essência das suas ações.
Nossas perguntas:
– A ficção está em risco como campo da invenção artística e do exercício criativo?
– O sistema cultural tem sido capaz de ser guardião da dimensão simbólica e do livre exercício da criação por artistas, curadores, pensadores e críticos?
– Como os espaços culturais têm trabalhado para a formação de imaginários culturais que fortaleçam a nossa capacidade de fabular e contar histórias e estimular valores de alteridade e convivência pacífica, ao mesmo tempo que provocam o pensamento crítico, a criatividade e a experimentação como atributos necessários à cidadania?
A partir dessas questões centrais o fórum ofereceu arenas de conversas diversas nas visões e experiências de mundo dos participantes.
Aqui, no laboratório coordenado pela querida Stela Barbieri, queremos ampliar essas trocas, focando na prática dos gestores e das instituições culturais, em formato de ateliês de trabalho.
Para dar início ao nosso trabalho, proponho algumas questões que têm orientado minha reflexão pessoal e em grupos e coletivos com as quais temos trabalhado.

Foto: Débora Bruno
Texto Disparador
Eu organizei alguns pontos de contribuição para nossos dois dias de trabalho em dois eixos:
- Sobre o trabalho de imaginar outras formas de atuar
- O problema dos clichês e de alguns dos referentes que estamos normalizando na gestão e nas práticas culturais. Uso aqui um artigo recente que fiz para a 6ª. Conferência de Cultura do Rio Grande do Sul, em janeiro de 2024;
- A imaginação é uma ferramenta de evolução humana. Sua âncora é a paixão pelo conhecimento e seu impulso uma espiritualidade laica que a partir das experiências acumuladas pelas memórias e pelas experimentações – erros, imprevistos, acertos, achados, invenções – crê em novas formas de projetar o mundo, as relações entre nós e com os outros seres vivos ou imanentes. Ficcionar o mundo, as histórias que passamos de geração em geração, as nossas ancestralidades organizadas em mitos, ritos, rituais, símbolos, códigos diversos é o principal lugar onde a imaginação habita.
Como nos lembra o teórico cultural ganês, Kwame Appiah, “antes que você possa reconstruir o mundo, você tem que ser capaz de imaginar um mundo diferente”. Aqui um trecho da conferência dele no Fronteiras do Pensamento.
https://fronteiras.com/assista/exibir/a-imaginacao-e-crucial
Neste laboratório queremos investigar especialmente a terceira pergunta feita para esta edição do fórum:
– Como os espaços culturais têm trabalhado para a formação de imaginários culturais que fortaleçam a nossa capacidade de fabular e contar histórias e estimular valores de alteridade e convivência pacífica, ao mesmo tempo que provocam o pensamento crítico, a criatividade e a experimentação como atributos necessários à cidadania?
- Sobre clichês e a importância de referentes[2]
Diante das crises combinadas que desafiam nosso pensamento e nossas práticas, me parece que contribuir com uma agenda para o nosso presente-futuro[3] passa por enfrentar essa revisão metodológica mais ampla da institucionalidade cultural.
O primeiro desafio é criar referentes que ressignifiquem as noções que orientam o nosso fazer e as visões de mundo que ajudamos a promover a partir delas. Uso como exemplo para constatar a urgência desse desafio, as palavras de Carlos Papá, cineasta e líder espiritual do povo Mbya: “As línguas indígenas também são territórios – de memória, de pensamento e de espiritualidade. Como árvores de uma grande floresta, formam comunidades, conectam mundos, espalham sementes e geram vida”.
O esforço de encontrar palavras carregadas de sentidos que dialoguem com visões diversas do mundo, se abram para novas perspectivas e revelem o compromisso, a partir da cultura, de dar novos significados a nossa prática é uma tarefa que não pode e não deve ser delegada a outras dimensões organizadas da vida pública. É a partir dos referentes que escolhemos que nos habilitamos a definir o horizonte simbólico dos valores e visões de mundo que oferecemos à sociedade.
Um exemplo, é o aumento significativo, nos últimos anos, de órgãos de cultura que acrescentaram “economia criativa” a seus nomes institucionais, o que evidencia o peso da visão econômica e de todos os jargões que ela carrega, em detrimento de outras. Essa tendência é derivada de outra: da prevalência de critérios de impacto econômico, de geração de postos de trabalho, de visões de empreendedorismo, em projetos de incentivos fiscais, notadamente colando balizadores corporativos ao exercício da criação artística.
Se por um lado, há no Brasil uma boa literatura no campo da economia criativa capaz de oferecer balizadores que tratam alguns dos desafios atuais, como os da desigualdade, também há que se perguntar por que diante da efervescência, diversidade e pulsão das artes e da cultura brasileira, e dos enormes desafios culturais que se apresentam na sociedade, que o fator econômico vira nome de secretarias e programas culturais. Qual o impacto que este referente nos traz para avaliar projetos e programas de artes e cultura, para definir o papel de museus, bibliotecas e oficinas culturais? Para orientar os gestores culturais nas suas escolhas e práticas diárias? Para imaginar exercícios criativos distantes da lógica de mercado, já tão desgastada?
A percepção que fica é da adoção acrítica de um paradigma econômico que tem pouco para oferecer como legado das pastas da cultura, que confunde artistas e gestores ao colocar em relevo resultados que entregam pouco para o tamanho do desafio da injusta economia brasileira, e mais das vezes promovem equívocos como substituir programas enraizados na comunidade, como os das Oficinas Culturais, por formações com visões de empreendedorismo já ultrapassadas no debate econômico global.
Paradoxalmente, na gestão cultural avançaram nos últimos anos noções econômicas neoliberais, maltratadas pela literatura do campo, que desconsideram os alertas em relatórios e briefings sobre o poder desestabilizador do caos social que o mundo assiste e a dificuldade das instituições de perceberem que as mudanças não são superficiais, mas estruturais, o que exige um esforço maior de mobilização de conhecimentos.
Aumentam também os programas e projetos que literalmente colam os selos dos ODS a suas iniciativas sem uma leitura crítica das estratégias adotadas em sua pactuação e as consequências práticas para o esvaziamento da ideia mesmo de sustentabilidade.
O campo da cultura, fonte e lar do pensamento crítico, passa a reproduzir lógicas que vem perdendo vitalidade nas áreas onde elas surgiram.
A disposição para a inventividade existe e está presente em várias instituições culturais espalhadas pelo mundo. Algumas dessas inovações, que iniciam com a mudança de referentes, estão no livro do escritor húngaro András Szántó, O Futuro dos Museus[4], onde ele apresenta 28 conversas com profissionais das artes e da gestão de museus com visões e experiências distintas. À pergunta inicial, o que é um museu?, há uma ênfase em respostas como “um lugar de encontro”, “uma ágora”, “um espaço para conversa”, “onde as opiniões ganham voz”, “um local de cultura e educação”, “um lar, de partilha e comunhão”. Para muitos que responderam, museus também são espaços “que promovem o pensamento crítico e empoderam pessoas”, “apontam caminhos para a nossa sociedade” ou “provocam nas pessoas um compromisso criativo com o seu próprio futuro”. É de se estranhar então que os critérios e indicadores usualmente utilizados para determinar o sucesso ou não de um museu passe ao largo dessas noções. E mais estranho ainda é perceber que este debate sobre os referentes sequer exista na pauta dos gestores culturais.
Fazendo um exercício livre de imaginação me pego pensando quais sentidos e legados deixaríamos se nossas secretarias de cultura se tornassem, de “Culturas e Encontros”, de “Artes, Culturas e Convivência Social” ou “Artes e Pensamento Crítico”, ou adotassem um nome das várias etnias e línguas indígenas que vivem no país, como Nhē’e Porã, que significa “belas palavras”, ou noções das culturas ancestrais africanas. O exercício vale quando consideramos que as palavras, e, portanto, as noções que elas expressam, estabelecem os imaginários que projetam nossas ações no mundo, o que elegemos como prioritário e os sentidos dos legados que deixamos.
Dito isso, o segundo desafio é derivado desse primeiro exercício de livre criação. Se mudamos os referentes para pensar nossa contribuição para “as futuras gerações”, que ressignifique nosso estar e viver no mundo, precisamos também pensar nossos indicadores de impacto e sucesso. Dos mais básicos, como instituir parâmetros de impacto socioambiental de eventos, festivais, mostras, edifícios que abrigam instituições culturais e assegurar condições dignas de vida aos trabalhadores da cultura, aos mais críticos como o proposto pela antropóloga chilena María Paulina Soto Labbé com seu índice de convivência intercultural (ICI), que nos convida a pensar uma agenda renovada de políticas culturais para enfrentar os problemas contemporâneos:
“O crescimento dos conflitos regionais e locais constitui um sério empecilho para a implementação das políticas públicas e para conseguir um desenvolvimento harmônico e humano. As brechas entre as opiniões políticas, sociais, culturais e econômicas se aprofundam e produzem conflitos entre os diversos grupos sociais, prejudicando a consecução de metas de bem-estar e entendimento harmonioso. A paz social está em perigo ou já foi severamente prejudicada. Com as nuances e as características de cada país, de cada povo, de cada segmento da população, esse panorama é mundial[5].
O importante é assumir um compromisso crítico, a partir das políticas culturais, com as estratégias que nos conduzirão a um mundo diferente desse que fomos capazes de construir. Abandonando clichês fáceis ou nos submetendo, muitas vezes e com muito atraso, a ideias de desenvolvimento e progresso, sobretudo a forma de fazer as coisas, que revelam preguiça mental e mesmice. Ingredientes que fazem a institucionalidade da cultura (aqui, destaco institucionalidade em contraponto as culturas presentes na sociedade) morrer de morte morrida.
Fica aqui um convite para atravessarmos juntos o rio dos tempos apontando a flecha para o lugar onde a cultura, as culturas, constroem sentidos para a existência humana.
“A força do manifesto está no poder de iniciar. Depois começa sempre o trabalho de inscrição no real, em busca de realização”. Donna Haraway.
[1] In Língua, Memória e Transformação. Texto de curadoria para o catálogo da exposição Nhe’ē Porã, 2024, Museu da Língua Portuguesa.
[2] Trecho editado do artigo Atravessar o rio dos tempos, elaborado para a 6ª. Conferência de Cultura do RS.
[3] Expressão cunhada pelo educador Tião Rocha.
[4] Editora Cobogó, 2022.
[5] SARAIVA, Enrique, in prefácio a Convivência intercultural – uma perspectiva latino-americana. Revista Observatório 33. São Paulo, 2020.


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